"Casa do Saber"

“Polo do conhecimento”, “Casa do saber”, “a elite da sociedade” são expressões que ficaram no passado e no currículo daqueles que se gabam por ter um título acadêmico. De uns tempos para cá possuir um canudo não basta é preciso saber utilizá-lo e colocar o seu conhecimento à serviço da sociedade. E quando o assunto são universidades públicas, então?! Nem se fala! A pecha de que o ingresso sairá um egresso mudado é válida – mudado para pior. Basta assistir aos vídeos, ver as fotos, ouvir e ler os comentários de quem estuda, leciona ou é servidor público nestes estabelecimentos.

É uma pena que universidades públicas tenham angariado esta fama e não é de ontem. E o que me deixa pasmo é que boa parte do corpo docente e discente vem de boa família, nunca precisou se preocupar em pagar uma conta de água, energia elétrica, gás, e muito menos ajudar seus familiares em atividades domésticas. Seria este o “berço esplêndido” cantado no hino nacional brasileiro? Em face de poucas preocupações o que sobra é pesquisar quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Sendo que esta realidade não os aflige, entretanto aflige e ocupa o tempo de milhares de brasileiros, a máxima de procurar (pesquisar, academicamente falando) pelo em ovo se torna rotina em ambientes universitários.

Afinal, para quem não precisa plantar, cultivar, pescar, extrair o seu alimento ou água o que sobra é adotar a postura de revolucionário de barriga cheia e ir contra o sistema. Sem se perguntar como o sistema funciona e muito menos de onde vem o alimento e a hoje tão cobiçada água potável. "Oculos habent et non videbunt, aures habent et non audient", “eles olham, mas não veem; escutam, mas não ouvem (Mateus 13:13).”

Vidrados na internet fogem da realidade que os envolve com famílias que gostariam de ter a vida deles. “Que comam brioche!”. E todo o intelecto de uma burguesia é usado para conflito de egos, joguinhos de interesse, e nenhum serviço público que importe. E a sociedade assiste ao vexame em instituições públicas e pais de família ressabiados preferem pagar pela faculdade dos filhos que vê-los estudando em ambientes desta estirpe. Hoje eu me pergunto se toda esta fachada não é premeditada para justamente ser um teatro e preservar a pose elitista fingindo não ser. Digno de uma aristocracia medieval, “nada novo debaixo do sol (Eclesiastes, 1:9).”

Mas parece que na era hype só há um pov (point of view) e o desmatamento da Amazônia, as alterações climáticas, e o desgaste na Camada de Ozônio podem esperar. Recentemente o Governador petlover catarinense Jorginho Mello publicou em suas redes sociais o seu amor pelo seu bichinho de estimação. É de se emocionar! Também é de se emocionar ao saber que ao redor da Casa d’Agronômica há famílias inteiras sem saneamento básico que disputam uma caixa d’água enquanto o governador favorito da aristocracia de Saint Catherine ostenta água em cisterna no belíssimo jardim da residência oficial do governador do estado.

Eu, sangue azul, assisto pasmo a esta tragédia. Semelhante à Alegoria da Caverna de Platão me pergunto quando os jovens universitários (e outros nem tão jovens assim) despertarão do berço esplêndido e enxerguem que não precisar pagar pela Educação, ter água potável para beber em filtros e bebedouros, poder tomar banho em vestiários, e pagar um preço simplório por refeição podendo repetir a comida e a bebida na Universidade é artigo de luxo hoje em dia enquanto muitos estão às margens da sociedade sem seus mínimos direitos constitucionais atendidos.

Sendo que não há nada novo debaixo do sol a realidade destas pessoas é apenas uma extensão daquilo em que nasceram e foram criados: desconhecem de onde vem e para onde vai a água de seus apartamentos, acreditam que o fogão elétrico não utiliza gás, e a única preocupação é como ficar desatualizado se o Wi-Fi cair. Enquanto isso famílias desbarrancam ao seu lado em deslizamentos de terras...

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